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Comitê: Andrologia

Testosterona e esteroides anabolizantes: implicações na fertilidade masculina e manejo clínico

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COMITÊ NACIONAL DE ANDROLOGIA 

Boletim SBRH: Testosterona e esteroides anabolizantes: implicações na fertilidade masculina e manejo clínico 

Autor: Arnold P. P. Achermann 

Introdução 

O uso de testosterona e esteroides anabolizantes androgênicos (EAA), anteriormente restrito a atletas de alto rendimento e fisiculturistas, tornou-se progressivamente mais frequente na população geral [1]. A ampla oferta dessas substâncias, a facilidade de aquisição e os efeitos rápidos sobre estética corporal, força e desempenho físico contribuem para sua popularização. No entanto, os potenciais efeitos deletérios — como atrofia testicular, supressão da espermatogênese, infertilidade transitória ou permanente e dependência de reposição hormonal — permanecem pouco discutidos fora do ambiente médico. 

Desde o isolamento e a síntese da testosterona por Butenandt e Ruzicka, laureados com o Prêmio Nobel de Química em 1939, diversos derivados foram desenvolvidos para indicações clínicas legítimas, como o tratamento do hipogonadismo, caquexia, sarcopenia e osteoporose [2, 3]. Contudo, o uso abusivo dessas substâncias, especialmente em doses suprafisiológicas e por períodos prolongados, tem se intensificado desde a década de 1980, estando associado a efeitos adversos sistêmicos relevantes, incluindo hepatotoxicidade, alterações cardiovasculares, disfunção renal e distúrbios psiquiátricos, além do comprometimento reprodutivo masculino [1, 4]. 

Efeito dos androgênios exógenos sobre o eixo reprodutivo masculino

A administração exógena de testosterona ou de EAA promove supressão do eixo hipotálamo-hipófise-testículo por feedback negativo, inibindo a secreção de LH e FSH [5]. Como consequência, há redução da testosterona intratesticular — essencial para a espermatogênese — e queda progressiva da produção de espermatozoides [5, 6]. Assim, apesar dos níveis elevados de testosterona sérica, a diminuição da testosterona intratesticular e do FSH compromete a espermatogênese, uma vez que esses hormônios atuam de forma sinérgica ao longo de todo o processo espermatogênico [7, 8]. 

Mesmo após a suspensão dessas substâncias, a recuperação da espermatogênese é variável e pode levar de 4 a 12 meses, ou não ocorrer plenamente, dependendo da dose, duração do uso e suscetibilidade individual [9]. Ademais, a interrupção abrupta pode cursar com sintomas de hipogonadismo, como redução da libido, disfunção erétil, fadiga e sintomas depressivos [1, 2]. 

Estratégias para resgate da espermatogênese 

O manejo desses pacientes é desafiador e deve buscar, de forma simultânea, o resgate da função reprodutiva e a melhora da qualidade de vida. Popularmente conhecido como “terapia pós-ciclo”, o tratamento corresponde, na prática médica, ao uso de fármacos capazes de estimular a produção endógena de testosterona e restaurar a função testicular. 

Três classes principais de medicamentos são utilizadas com esse objetivo: 

  1. Moduladores seletivos do receptor de estrogênio (do inglês, SERMs), como o citrato de clomifeno e o tamoxifeno, que atuam por via sistema nervoso central aumentando a secreção de LH e FSH; 
  2. Gonadotrofina coriônica humana (hCG), que atua diretamente nos receptores de LH das células de Leydig – devido à semelhança molecular ao LH –, estimulando a produção intratesticular de testosterona; 
  3. Inibidores da aromatase, como o anastrazol e o letrozol, que reduzem a conversão periférica de testosterona em estradiol, auxiliando no equilíbrio hormonal em casos selecionados.

Existem diversos protocolos, com diferentes combinações de fármacos, posologias e durações de tratamento [3, 6, 7, 10]. No entanto, a condução deve ser individualizada, com monitorização clínica e laboratorial seriada, respeitando a farmacodinâmica de cada medicação e os objetivos reprodutivos do paciente. Em cenários selecionados, pode ser considerada a associação de terapias destinadas à estimulação da produção endógena de testosterona com a redução progressiva da testosterona exógena, visando atenuar sintomas de hipogonadismo comumente observados após a suspensão abrupta do uso de testosterona ou de EAA [3]. 

Tempo biológico e avaliação do casal 

É fundamental lembrar que o ciclo completo da espermatogênese dura aproximadamente 74 dias [11]. Assim, mesmo após a suspensão dos androgênios exógenos e início do tratamento farmacológico, recomenda-se um intervalo mínimo de três meses antes da reavaliação seminal. 

A infertilidade é, por definição, uma condição do casal. A idade da mulher e fatores ginecológicos associados exercem impacto direto nas decisões terapêuticas. Diretrizes internacionais, como as da AUA e EAU, reforçam a importância da avaliação conjunta e da tomada de decisão compartilhada entre urologista, ginecologista e o casal [12, 13]. Em situações nas quais o tempo reprodutivo feminino é limitante, pode ser necessária a indicação precoce de técnicas de reprodução assistida [7, 10]. 

Fluxograma 

Considerações finais 

O uso abusivo de testosterona e esteroides anabolizantes representa um problema crescente de saúde pública, com repercussões diretas sobre a fertilidade masculina. A informação adequada, o reconhecimento precoce dos riscos e o manejo clínico baseado em evidências são fundamentais. A atuação integrada entre urologistas e ginecologistas, aliada ao envolvimento ativo do casal nas decisões, é essencial para maximizar as chances de sucesso reprodutivo. 

Referências:

1- de Souza GL, Hallak J. Anabolic steroids and male infertility: a comprehensive review. BJU Int. 2011 Dec;108(11):1860-5. doi: 10.1111/j.1464-410X.2011.10131.x. 

2- Linhares BL, Miranda EP, Cintra AR, Reges R, Torres LO. Use, Misuse and Abuse of Testosterone and Other Androgens. Sex Med Rev. 2022 Oct 1;10(4):583-595. doi: 10.1016/j.sxmr.2021.10.002. 

3- Rahnema CD, Lipshultz LI, Crosnoe LE, Kovac JR, Kim ED. Anabolic steroid-induced hypogonadism: diagnosis and treatment. Fertil Steril. 2014 May;101(5):1271-9. doi: 10.1016/j.fertnstert.2014.02.002. 

4- Kanayama G, Pope HG Jr. History and epidemiology of anabolic androgens in athletes and non-athletes. Mol Cell Endocrinol. 2018 Mar 15;464:4-13. doi: 10.1016/j.mce.2017.02.039. 5- Tatem AJ, Beilan J, Kovac JR, Lipshultz LI. Management of Anabolic Steroid-Induced Infertility: Novel Strategies for Fertility Maintenance and Recovery. World J Mens Health. 2020 Apr;38(2):141-150. doi: 10.5534/wjmh.190002. 

6- Ledesma BR, Weber A, Venigalla G, Muthigi A, Thomas J, Narasimman M, White J, Ramasamy R. Fertility outcomes in men with prior history of anabolic steroid use. Fertil Steril. 2023 Dec;120(6):1203-1209. doi: 10.1016/j.fertnstert.2023.09.016. 

7- Rizzuti A, Alvarenga C, Stocker G, Fraga L, Santos HO. Early Pharmacologic Approaches to Avert Anabolic Steroid-induced Male Infertility: A Narrative Review. Clin Ther. 2023 Nov;45(11):e234-e241. doi: 10.1016/j.clinthera.2023.09.003. 

8- Esteves SC, Achermann APP, Simoni M, Santi D, Casarini L. Male infertility and gonadotropin treatment: What can we learn from real-world data? Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2023 Feb;86:102310. doi: 10.1016/j.bpobgyn.2022.102310. 

9- Turek PJ, Williams RH, Gilbaugh JH 3rd, Lipshultz LI. The reversibility of anabolic steroid-induced azoospermia. J Urol. 1995 May;153(5):1628-30. 

10- Whitaker DL, Geyer-Kim G, Kim ED. Anabolic steroid misuse and male infertility: management and strategies to improve patient awareness. Expert Rev Endocrinol Metab. 2021 May;16(3):109-122. doi: 10.1080/17446651.2021.1921574.

11- Misell LM, Holochwost D, Boban D, Santi N, Shefi S, Hellerstein MK, Turek PJ. A stable isotope-mass spectrometric method for measuring human spermatogenesis kinetics in vivo. J Urol. 2006 Jan;175(1):242-6; discussion 246. doi: 10.1016/S0022-5347(05)00053-4. 

12- Brannigan RE, Hermanson L, Kaczmarek J, Kim SK, Kirkby E, Tanrikut C. Updates to Male Infertility: AUA/ASRM Guideline (2024). J Urol. 2024 Dec;212(6):789-799. doi: 10.1097/JU.0000000000004180. 

13- Minhas S, Boeri L, Capogrosso P, Cocci A, Corona G, Dinkelman-Smit M, Falcone M, Jensen CF, Gül M, Kalkanli A, Kadioğlu A, Martinez-Salamanca JI, Morgado LA, Russo GI, Serefoğlu EC, Verze P, Salonia A. European Association of Urology Guidelines on Male Sexual and Reproductive Health: 2025 Update on Male Infertility. Eur Urol. 2025 May;87(5):601-616. doi: 10.1016/j.eururo.2025.02.026.

 

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