ESHRE Ovarian Stimulation Guideline – Parte E – MO NITORIZAÇÃO DURANTE O ESTÍMULO OVARIANO CONTROLADO (EOC)
Renata Reigota 1
Noleto, Leilane ²
1 Membro do comitê de infertilidade da SBRH, Sócio-fundadora da Clínica Essenza – Campinas/SP
² Membro do comitê de infertilidade da SBRH, Membro do corpo clínico da Verhum, Fertvida Prime e HMIB, Preceptora da residência médica de reprodução assistida do HMIB
Este documento é uma tradução resumida da parte E do Guideline de Estimulação Ovariana da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), atualizado em 2025. O documento original está disponível na íntegra no endereço eletrônico: https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Ovarian-Stimulation-in-IVF-ICSI
- Avaliação hormonal durante o estímulo ovariano controlado (EOC)
Quando começar a monitorizar o crescimento folicular?
O controle folicular durante o EOC tem por objetivo avaliar o número e o diâmetro médio dos folículos em desenvolvimento e, desta forma, entender a quantidade esperada de óvulos no momento da punção ovariana. Além disso, o número e o diâmetro médio dos folículos também são informações importantes para a definição do momento do trigger. Embora o usual seja a realização de um ultrassom basal seguido de monitorização folicular a partir do oitavo dia de EOC até a data do trigger, podem ocorrer variações nesta forma de seguimento. O mesmo ocorre para as avaliações hormonais ao longo do EOC. Este seguimento hormonal teria os objetivos de acompanhar o grau de supressão pituitária ao longo do estímulo, identificar elevação precoce dos níveis de progesterona e utilizar os níveis de estradiol como forma de entender o número de óvulos esperado. Para nenhum desses objetivos há evidência científica sobre o momento ideal em que a avaliação hormonal deveria ser iniciada.
A adição da monitorização de níveis hormonais (estradiol / progesterona / LH) ao acompanhamento ecográfico dos folículos aumenta eficácia e segurança do tratamento?
Foi realizado estudo para entender a prática global da monitorização hormonal durante o EOC no tratamento de FIV/ICSI. A maior parte dos participantes (98.9%) afirmou que usava o ultrassom para acompanhamento folicular durante EOC. A monitorização hormonal foi amplamente utilizada e praticada por 420 (79.5%) dos participantes durante alguma fase do controle folicular. Estradiol foi o hormônio mais frequentemente dosado na primeira e na segunda/terceira visitas após a primeira aplicação das gonadotrofinas. A dosagem hormonal foi mais frequentemente realizada na data do trigger e na véspera da maturação oocitária final, sendo que 71% dos participantes afirmaram seguir esta conduta. O número de participantes que dosaram progesterona neste momento foi 67.7% maior do que as dosagens no segundo/terceiro ultrassons para controle. Da mesma forma, houve aumento na proporção de participantes que afirmaram dosar LH no dia ou na véspera do trigger (27.3% na segunda /terceira visitas versus 31.5% no dia ou na véspera do trigger). A monitorização dos níveis de estradiol foi utilizada por 74% dos participantes para predição de síndrome de hiperestimulo ovariano (SHO). Dentre os participantes, 23.5% dosaram progesterona em todas ou quase todas as pacientes durante o EOC, enquanto 21.1% mediram estradiol em poucas situações. A maior parte dos participantes referiu acreditar que as dosagens hormonais desempenham papel importante durante o EOC, e 56% consideraram que a avaliação hormonal nesta etapa do tratamento ajuda a tomar decisões que permitam evitar a SHO.
- Ultrassom e Medidas de Estradiol
Metanálise da Cochrane mostrou não haver evidência de menor prevalência de SHO quando se utiliza a monitorização dos níveis de estradiol associada ao controle por ultrassom durante o EOC (6 RCT, OR 1.03, 95% CI 0.48-2.20, 781 mulheres), assim como não houve aumento das taxas de gravidez (4 RCT, OR 1.10, 95% CI 0.79-1.54, 617 mulheres) ou do número de óvulos coletados (5 RCT, WMD 0.32, 95% CI -0.60 to 1.24, 596 mulheres).
Sendo assim, aparentemente o uso de monitorização de estradiol associado ao ultrassom, quando comparado ao uso apenas do controle ecográfico durante o EOC, não se mostrou superior quanto à eficácia e à segurança. Portanto, não é recomendada a monitorização dos níveis de estradiol durante EOC.
- Ultrassom e monitorização de progesterona OU Ultrassom e monitorização de LH
Não há publicações, até o momento, que recomendem a associação da dosagem de progesterona ao controle ecográfico durante EOC.
- Ultrassom e monitorização de hormônios durante o EOC
A associação do controle ecográfico durante o EOC à monitorização de níveis de estradiol, progesterona e LH provavelmente não é recomendada, pois não há evidência de aumento da eficácia e segurança, assim como não houve aumento das taxas de gravidez, aumento do número de óvulos coletados, redução do risco de SHO ou redução do número de ciclos cancelados.
- Espessura Endometrial
Monitorização da espessura endometrial afeta eficácia e segurança?
Endométrio fino durante EOC está associado a menores taxas de sucesso em tratamento de FIV, mesmo na ausência de cirurgias ou infecções endometriais prévias.
Para que fosse possível confirmar se de fato a espessura endometrial poderia afetar segurança e eficácia na FIV, seria necessário que houvesse estudos comparando monitorização endometrial durante EOC e ausência desta monitorização. No entanto, não há na literatura, até o momento, estudos realizados com este objetivo.
Foram, portanto, utilizados, alternativamente, estudos que avaliaram se a espessura endometrial poderia ser fator preditivo para taxa de implantação embrionária e taxa de nascidos vivos.
Como os dados são conflitantes, não há recomendação para a monitorização da espessura endometrial durante o EOC.
O grupo responsável por este guideline sugere uma única avaliação da espessura endometrial no dia do trigger ou no dia da coleta de óvulos, para adequado aconselhamento da paciente sobre possível redução da probabilidade de gravidez.
Há dados que sugerem que endométrio fino possa estar associado, como fator independente, a menores taxas de gravidez clínica. Há outras evidências que sugerem que endométrio fino esteja associado também a complicações obstétricas. No entanto, é importante reforçar que esses são dados baseados em poucos estudos retrospectivos.
- Critérios para maturação oocitária final
- Diâmetro folicular
Não há evidência suficiente que suporte a aplicação do diâmetro folicular como critério isolado para a definição do momento do trigger.
Esta definição é multifatorial e deve considerar: o diâmetro médio da coorte folicular em desenvolvimento; os níveis hormonais na data proposta para o trigger; duração do EOC; estratégia prevista para a transferência embrionária; custos financeiros; experiência em caso de tratamentos prévios já realizados; organização de cada centro de reprodução humana. Mais frequentemente, o trigger para maturação oocitária final é realizada no momento em que a maioria dos folículos apresenta diâmetro médio entre 16 e 22mm.
- Niveis de estradiol
Não há recomendação para que o nível de estradiol seja considerado um fator para definição do momento do trigger, visto não haver estudos realizados com este objetivo.
Os níveis de estradiol variam durante o EOC de acordo com o diâmetro da coorte folicular em desenvolvimento, o grau de homogeneidade do crescimento da coorte folicular e as condições endócrinas da paciente.
- Razão Estradiol/Folículo
Não há estudos de intervenção que tenham avaliado a aplicação da razão estradiol/folículo como fator de definição do momento do trigger. Portanto, não há recomendação de que esta relação seja usada isoladamente como fator para definição do momento ideal para a maturação oocitária final.
- Avaliação hormonal no dia da maturação oocitária final
Há recomendação para a avaliação hormonal no dia da maturação oocitária final?
- Ciclos com hCG como trigger
* Progesterona
Não é possível randomizar pacientes para avaliar resultados de acordo com diferentes níveis de progesterona. Por isso, os dados são obtidos apenas a partir de estudos observacionais. Estes estudos mostram redução das taxas de gravidez e de gravidez clínica, sugerindo inclusive um efeito em gradiente (ou seja, quanto mais elevados forem os níveis de progesterona no dia do trigger, menores são as taxas de gravidez e de gravidez clínica obtidas).
Há, no entanto, controvérsias sobre este achado, considerando estudo observacional que incluiu pequeno número de mulheres, mas apontou baixas taxas de gravidez e de gravidez clínica no grupo de pacientes com progesterona não elevada.
Em suma, diante dos achados, considera-se provavelmente recomendada a dosagem de progesterona no dia do trigger em ciclos em que haja intenção de transferência embrionária a fresco.
Se o nível de progesterona estiver elevado, recomenda-se orientar a paciente sobre possível redução das taxas de gravidez clínica e de nascido vivo. A decisão sobre seguir com a transferência embrionária a fresco deveria ser baseada também em outros fatores, como número de oócitos, número de embriões e qualidade embrionária.
* Estradiol
Assim como ocorre com a progesterona, não é possível randomizar pacientes para avaliar resultados de acordo com diferentes níveis de estradiol. Por isso, os dados são obtidos apenas a partir de estudos observacionais. Estes estudos sugerem de forma consistente que o nível de estradiol no dia do trigger é um preditor fraco de taxas de gravidez clínica e de nascidos vivos.
Não é recomendada a dosagem de rotina dos níveis de estradiol no dia do trigger com hCG, nos ciclos em que há intenção de transferência embrionária a fresco.
* LH
Os estudos atualmente disponíveis são limitados por serem de desenho retrospectivo e por apresentarem limitações quanto à análise estatística.
Sendo assim, não é recomendada a dosagem de LH no dia do trigger em ciclos em que há intenção de transferência embrionária a fresco.
- Ciclos com Agonista de GnRH como trigger
* Progesterona
Estudos retrospectivos mostraram não haver relação entre nível de progesterona no dia do trigger e prevalência de ciclos com resposta inadequada ao trigger com agonista de GnRH.
* Estradiol
Diferentes estudos retrospectivos mostraram que os níveis de estradiol variam significativamente quando realizada dosagem na data do trigger tanto em ciclos com resposta adequada quanto em ciclos com resposta inadequada ao trigger com agonista de GnRH.
* LH
Estudos retrospectivos mostraram não haver relação entre níveis de LH no dia do trigger e resposta inadequada ao agonista de GnRH, tendo sido analisados os seguintes desfechos: razão entre número de óvulos coletados e número de folículos com diâmetro > 10mm no dia do trigger; dosagem de LH > 15UI/L 12 horas após o trigger com agonista de GnRH.
Sendo assim, não é recomendada a dosagem de Progesterona, Estradiol ou LH no dia do trigger com agonista de GnRh, em ciclos em que se propõe freeze-all.
- Critérios para cancelamento do ciclo
Quais critérios são significativos quando considerado o cancelamento de ciclos com baixa/alta resposta oocitária?
- Baixa resposta ovariana
A situação clínica em que a paciente é considerada “má respondedora” ocorre em 5.6% a 35.1% dos casos. Embora menor do que no grupo de mulheres normorrespondedoras, também há possibilidade de gravidez entre pacientes com baixa resposta ovariana.
Estudo que avaliou taxa de gravidez em mulheres que apresentaram desenvolvimento de 1 ou 2 folículos durante o EOC mostrou que o único fator que interferiu na taxa de nascido vivo foi a idade feminina. Além disso, a variação da taxa de nascido vivo em função da idade feminina também se mostrou dependente da contagem de folículos antrais (CFA), o que mostrou ser este um fator preditor independente.
- Elevada resposta ovariana
A prevalência de SHO varia entre 2% e 9%. A resposta ovariana exacerbada inclui casos em que são coletados > 14 a > 16 oócitos.
Há forte associação entre taxa de nascido vivo e número de oócitos coletados. A taxa de nascidos vivos aumentou quando houve > 15 oócitos coletados, manteve-se estável quando coletados 15 a 20 oócitos e diminuiu quando coletados > 20 oócitos.
Sendo assim, concluiu-se que:
– Baixa resposta ao EOC isoladamente não é fator que justifique cancelamento do ciclo.
– Em casos de baixa resposta ocorrida de forma inesperada, a decisão entre seguir ou cancelar o ciclo deve sempre ser tomada em conjunto (médico e paciente).
– Em ciclos com agonista de GnRH em que há > 19 folículos com diâmetro > 11mm, há risco aumentado de SHO. Sendo assim, é recomendado que seja aplicada medida preventiva, o que incluiria primariamente o cancelamento da maturação oocitária final.
– Em ciclos com antagonista de GnRh, em pacientes com resposta ovariana exacerbada, deve-se considerar o uso de agonista de GnRH para o trigger.
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