Fone: 11 5055-6494  |  11 5055-2438
Whatsapp da Sociedade
Associe-se à
SBRH
Renove sua Anuidade
Área do
Associado

Comitê: Psicologia

Experiências trans e a singularidade do corpo

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

 

Juliana Roberto dos Santos

 

Do ponto de vista da subjetividade, o termo “trans” ainda está em processo de elaboração. Atualmente, ele designa uma diversidade de sujeitos cuja experiência é marcada por um desencontro entre o gênero vivido e aquele que lhes foi atribuído a partir da observação do sexo no nascimento.

Essa categoria inclui pessoas que podem vivenciar diferentes níveis de sofrimento psíquico em relação ao próprio corpo, especialmente no que diz respeito às formas corporais associadas ao gênero. Inclui também aquelas que buscam intervenções hormonais ou cirúrgicas como forma de alinhar o corpo à sua identificação subjetiva. Há, ainda, sujeitos que realizam apenas mudanças nos significantes sociais de gênero — como nome e pronomes — sem recorrer a procedimentos médicos, assim como aqueles que não apresentam angústia corporal ou que se colocam fora do binarismo homem/mulher, abrindo espaço para nomeações como “não-binário” ou “agênero. ”

Essa multiplicidade de experiências evidencia a inexistência de uma narrativa trans única ou hegemônica. Em vez disso, encontramos uma série de narrativas singulares, marcadas por trajetórias complexas. Por essa razão, qualquer tentativa de generalização sobre as experiências trans tende a ser reducionista. Não se trata de estabelecer um modelo normativo de constituição do gênero, mas de reconhecer a pluralidade de caminhos possíveis.

É nesse sentido que Saketopoulou (2020) propõe deslocar a noção de “etiologia” — frequentemente associada à causalidade e à patologização — para a ideia de linhas de desenvolvimento, mais atentas à singularidade de cada sujeito. O foco deixa de ser a busca por uma origem do “trans” e passa a considerar o modo como, ao longo da vida, cada sujeito constrói identidade singular pautada na sua própria experiência humana.

O desejo de transitar, modificar ou nomear o corpo não deve ser entendido como resistência ou recusa, mas como uma forma de operar sobre algo do real que insiste. Não se trata apenas de estilo ou performance, mas de uma tentativa de dar forma — real, simbólica ou as vezes imaginária— a um modo possível de estar no mundo e de responder ao enigma do desejo.

Nesse contexto, a identidade de gênero não é algo que se alcança como um ponto final, mas uma resposta possível atravessada pelas marcas do inconsciente. 

A clínica é, portanto, convocada a sustentar a escuta dessas travessias, sem impor normatividade ali onde o sujeito constrói sua própria lógica de existência.

 

Referência:

SAKETOPOULOU, A. Thinking psychoanalytically, thinking better: reflections on transgender. The International Journal of Psychoanalysis, London, v. 101, n. 5, p. 1019–1030, 2020.

BAIXE AQUI O PDF DO BOLETIM