Luciana Leis- Psicóloga
Atualmente, os transplantes de órgãos não se restringem apenas a salvar vidas. Nos últimos anos os avanços da ciência permitiram que outros tipos de transplantes fossem possíveis visando a melhora da qualidade de vida das pessoas, como é o caso do transplante de face, mão e laringe.
O transplante de útero (UTx) entraria nesse tipo de categoria e, além de promover melhora na qualidade de vida, também proporciona a propagação da vida. Somado a isso, é o primeiro transplante em que o órgão é necessário somente por um tempo restrito, uma vez que após o nascimento do número de filhos desejados, faz-se a retirada do útero para que a paciente não precise tomar imunossupressores para o resto da vida, evitando efeitos colaterais a eles associados a longo prazo1.
O transplante de útero é indicado para mulheres com fator uterino absoluto de infertilidade o qual, geralmente, está associado a causas congênitas ou adquiridas. Entre as causas congênitas, a mais comum é a ligada à Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser (MRKH) em que a maioria das mulheres nascem sem útero2,3. Já entre as causas adquiridas via histerectomia estão o câncer cervical, hemorragia pós-parto, aumento do sangramento uterino, leiomiomas, etc4,2.
Estima-se que uma em cada 500 mulheres possua fator uterino absoluto de infertilidade5, sendo que a única possibilidade dessas mulheres poderem gestar e darem à luz a um filho biológico é através de um transplante de útero.
No entanto, enquanto a maioria dos transplantes envolve uma única cirurgia no receptor, no transplante de útero uma série de procedimentos serão necessários: fertilização in vitro, implante de enxerto, cesárea e remoção do enxerto após a conclusão da gravidez, para retirada do imunossupressor. Isso sem contar a cirurgia da doadora, nos casos de doação de útero intervivo6.
Muitas pacientes com fator uterino absoluto de infertilidade encontram na adoção ou na cessão temporária de útero/barriga de aluguel uma via possível para a construção de suas famílias. Porém, faz-se relevante destacar que uma série de implicações pessoais, financeiras, legais e éticas podem estar relacionadas a esses tipos de busca, dificultando ou mesmo impossibilitando esse caminho dependendo da cultura e/ou legislação de cada país7.
É importante destacar que a infertilidade costuma gerar sentimentos de inferioridade e incapacidade e para algumas mulheres somente a gestação, através da marca real da gravidez em seu corpo, seria capaz de provar a elas sua capacidade e feminilidade- ao contrário do que seria esse reconhecimento através da via simbólica8. Assim, o transplante de útero seria de grande importância para essas mulheres.
Porém, dada a complexidade dos procedimentos envolvidos no transplante uterino e a existência de alternativas menos arriscadas para a maternidade, surge o questionamento sobre as motivações que levam essas mulheres a escolherem essa opção.
A maioria das pesquisas apontam que entre as principais motivações para o transplante uterino estão o desejo de gestar e de ter um filho biológico 6,9,10. Estudos qualitativos sobre o tema apontam que para essas mulheres, o transplante seria uma maneira de restauração da feminilidade e uma possibilidade de terem maior controle sobre a gravidez, sem envolver uma terceira pessoa nesse projeto11, 12.
Leis et al.13 em uma revisão sistemática da literatura sobre as motivações de mulheres para o transplante uterino, verificaram que as razões para essa busca transcendem apenas o desejo de gestar o próprio filho e somam-se a motivos singulares, que refletem a importância que tem para cada uma delas ter ou voltar a ter um útero e tudo que este órgão representa dentro de sua história particular. Dentre os achados dessa pesquisa, além dos motivos já mencionados até o momento, constataram também, que para muitas mulheres ter um útero, representa uma maneira de reparação fisiológica do corpo, por exemplo, com a possibilidade de menstruar e engravidar, algo que é símbolo da feminilidade e exclusivo da mulher.
Um estudo realizado por Jones et al.14 com 182 mulheres transgênero explicitou ainda mais a ligação existente entre útero e feminilidade. Nesta pesquisa, a grande maioria das pacientes (94%) acreditavam que a capacidade de gestar e menstruar (88%) aumentaria sua percepção de feminilidade, ajudando-as a se sentirem mais mulher.
Portanto, as motivações que levam mulheres com fator uterino absoluto de infertilidade a desejarem se submeter a um transplante de útero, vão além do simples desejo de gestar o próprio filho. Elas incluem motivações pessoais e únicas, refletindo a importância simbólica que o útero possui na trajetória individual de cada mulher.
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