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Comitê: Nutrição

Estratégias nutricionais na endometriose: Evidências para o manejo clínico e reprodutivo

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Autores: Tamiris Julio e Tayana Vago 

Comitê Nacional de Nutrição 

Estratégias nutricionais na endometriose: Evidências para o manejo clínico e  reprodutivo 

Introdução 

A endometriose é uma condição inflamatória crônica, sistêmica e estrogênio dependente, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade  uterina. Estima-se que acometa cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, estando  frequentemente associada à dor pélvica crônica, dismenorreia, dispareunia, alterações  gastrointestinais e comprometimento significativo da qualidade de vida (1). Além do impacto  sobre os sintomas, a endometriose representa uma das principais causas de infertilidade  feminina, estando presente em aproximadamente 40 a 50% das mulheres com dificuldade para  engravidar. 

A fisiopatologia da doença é complexa e multifatorial, envolvendo interação entre  fatores genéticos, hormonais, imunológicos e ambientais. Entre os mecanismos mais relevantes  destacam-se a inflamação crônica, o estresse oxidativo, a disfunção imunológica e alterações  na sinalização hormonal, especialmente relacionadas ao metabolismo estrogênico e à  resistência à progesterona (2). Esse ambiente favorece a proliferação e manutenção das lesões  endometrióticas, além de contribuir para o desenvolvimento da dor e para alterações da função  reprodutiva. 

O comprometimento da fertilidade, junto da dor pélvica, é uma das consequências mais  relevantes da doença, afetando de 21% a 47% das mulheres em idade reprodutiva com o  diagnóstico, representando uma questão significativa de saúde global (3), que impacta em  diferentes etapas do processo reprodutivo.  

Alterações no ambiente peritoneal e folicular estão associadas à redução da qualidade  oocitária, disfunção mitocondrial e prejuízo ao desenvolvimento embrionário (4).  Adicionalmente, alterações endometriais relacionadas à resistência à progesterona podem  comprometer a receptividade endometrial e a implantação embrionária. Dessa forma, a  infertilidade associada à endometriose resulta da interação entre fatores anatômicos,  inflamatórios, endócrinos e celulares. 

Embora o tratamento convencional inclua abordagens hormonais e cirúrgicas, observa se crescente interesse em estratégias complementares capazes de atuar sobre mecanismos  centrais da doença. Nesse cenário, a nutrição emerge como uma ferramenta potencialmente 

relevante, tanto por meio da adoção de padrões alimentares com propriedades anti inflamatórias quanto pela utilização de compostos bioativos e suplementos nutricionais  direcionados à modulação do estresse oxidativo, da inflamação e da função reprodutiva. 

O objetivo deste boletim é revisar as evidências atuais sobre o papel das estratégias  nutricionais no manejo da endometriose, com foco nos padrões alimentares e na suplementação  nutricional como abordagens adjuvantes ao tratamento clínico e reprodutivo dessas pacientes. 

Padrões alimentares e endometriose 

A dieta pode influenciar a inflamação, o estresse oxidativo e o metabolismo do  estrogênio, fatores centrais na fisiopatologia da endometriose, além de modular o  microambiente uterino, incluindo o metaboloma endometrial, com potencial impacto nas causas de infertilidade associadas à doença (5,6). 

O padrão alimentar ocidental, tipicamente rico em alimentos processados, açúcares  refinados, gorduras saturadas e trans, e pobre em fibras, está associado à desregulação  imunológica e à inflamação crônica de baixo grau; em contrapartida, alimentação rica em  nutrientes anti-inflamatórios, como ácidos graxos ômega-3, antioxidantes e fibras, associa-se a  efeitos benéficos sobre o sistema imunológico e redução das respostas inflamatórias (3). Neste  contexto, uma intervenção dietética de perfil anti-inflamatório pode potencialmente contribuir  para modular não apenas a dor, mas também, a fertilidade nestas pacientes (3). 

De forma geral, na função reprodutiva, as estratégias atualmente mais sustentadas pelas evidências incluem aumentar o consumo de frutas, vegetais, fibras, peixes e ômega-3, gorduras  insaturadas e antioxidantes como vitaminas C, E e D, além de reduzir carnes vermelhas e  processadas, gorduras saturadas e trans, alimentos ultraprocessados, açúcares em excesso,  cafeína em quantidade elevada e álcool (7,8). 

Neste cenário, a dieta mediterrânea vem sendo cada vez mais reconhecida por seus efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes, capaz de reduzir significativamente os níveis de  estresse oxidativo e inflamação, que se correlacionam positivamente com maior percepção de  dor e subfertilidade em mulheres com endometriose (5).  

Estudos de intervenção pré e pós tratamento evidenciam que seus componentes, como  azeite, frutas, vegetais, grãos integrais e ervas, ricos em antioxidantes, polifenóis e compostos  anti-inflamatórios, podem auxiliar no manejo de sintomas como dispareunia, dor pélvica não  menstrual, disúria, disquesia e na manutenção do equilíbrio hormonal, importante para a função  reprodutiva (5). 

Outro padrão bastante estudado é a dieta com baixo teor de FODMAP, que restringe  carboidratos de cadeia curta fermentáveis para promover a saúde intestinal e modular a resposta  imune, podendo contribuir para a redução da intensidade da dor pélvica (7). Desta forma, tanto  a dieta mediterrânea quanto a dieta de baixo FODMAP são consideradas estratégias  promissoras no manejo da endometriose, por atuarem sobre mecanismos como a inflamação  sistêmica, a permeabilidade intestinal, a desregulação imunológica e a hipersensibilidade  visceral, embora cada uma apresente padrões distintos de alívio sintomático (8). 

É importante ressaltar que a dieta não cura a endometriose e ainda não há uma dieta  específica comprovadamente mais eficaz do que outras intervenções alimentares para o alívio  de sintomas, faltando mais estudos de intervenção de grande porte (7,8). Há plausibilidade  biológica consistente de que padrões alimentares anti-inflamatórios e de perfil mediterrâneo  associam-se a menor risco da doença, intensidade da dor, qualidade de vida e beneficiem o  ambiente reprodutivo. 

Enfatiza-se ainda que dietas excessivamente restritivas, como exclusão rígida de  glúten ou laticínios, podem gerar deficiências nutricionais e sobrecarga psicológica quando não  bem orientadas (9); a investigação e exclusão de alergias coexistentes devem ser conduzidas  com cautela em acompanhamento nutricional individualizado. 

Suplementação nutricional na endometriose 

  1. Modulação do estresse oxidativo e da inflamação 

A inflamação crônica e o estresse oxidativo constituem pilares centrais da fisiopatologia  da endometriose. O aumento da produção de espécies reativas de oxigênio, associado à ativação  de vias inflamatórias e à produção de citocinas pró-inflamatórias, contribui para a manutenção  das lesões, progressão da doença, sensibilização neural e desenvolvimento da dor pélvica  crônica (2). Nesse contexto, diversos compostos nutricionais têm sido investigados como  estratégias adjuvantes capazes de modular essas vias biológicas. 

Entre os antioxidantes estudados, a combinação de vitaminas C e E apresenta resultados  clínicos favoráveis para redução da dor associada à endometriose, com ensaios demonstrando  melhora de dor pélvica crônica, dismenorreia e dispareunia, além de redução de marcadores  inflamatórios e oxidativos (10,11). Apesar desses achados, ainda são necessários estudos  adicionais para definir melhor população-alvo, duração da intervenção e impacto sobre o uso  de analgésicos. 

Entre os compostos mais estudados destaca-se a N-acetilcisteína (NAC), precursora da  glutationa e importante antioxidante intracelular. Além de atuar na neutralização de espécies 

reativas de oxigênio, a NAC parece exercer efeitos anti-inflamatórios e antiproliferativos,  reduzindo a expressão de mediadores envolvidos na progressão das lesões endometrióticas.  Estudos clínicos demonstraram redução do tamanho de endometriomas ovarianos e melhora de  sintomas relacionados à doença, sugerindo potencial benefício como estratégia complementar  ao tratamento convencional (12). 

Os ácidos graxos ômega-3 também vêm sendo amplamente investigados devido à sua  capacidade de modular a produção de eicosanoides e reduzir a atividade de vias inflamatórias.  Embora os resultados disponíveis sejam heterogêneos, evidências observacionais e alguns  ensaios clínicos sugerem associação entre maior consumo de ômega-3 e redução da intensidade  da dor pélvica, além de potencial benefício na modulação do ambiente inflamatório sistêmico  (13,14). 

A vitamina D representa outro nutriente de interesse, especialmente devido aos seus  efeitos imunomoduladores. Estudos experimentais demonstram potencial influência sobre a  proliferação celular, angiogênese e resposta inflamatória. Entretanto, os resultados clínicos  permanecem inconsistentes, não havendo consenso quanto ao seu papel específico no controle  dos sintomas da endometriose (13,15,16). Ainda assim, considerando a elevada prevalência de  insuficiência e deficiência de vitamina D em mulheres em idade reprodutiva, a avaliação e  correção de inadequações nutricionais permanecem relevantes na prática clínica. 

Além dos micronutrientes e antioxidantes tradicionalmente estudados, diversos  compostos bioativos vêm sendo estudados devido às suas propriedades antioxidantes, anti inflamatórias e antiproliferativas. 

A curcumina, principal polifenol da cúrcuma, apresenta capacidade de modular vias  inflamatórias importantes na endometriose, incluindo a inibição da ativação do NF-κB e a  redução da produção de citocinas pró-inflamatórias. Estudos experimentais sugerem ainda  potencial efeito antiangiogênico e antiproliferativo sobre as lesões endometrióticas (17,18).  Apesar desses resultados promissores, os ensaios clínicos em humanos ainda são limitados. 

O resveratrol, composto encontrado em uvas e outras fontes vegetais, também tem sido  investigado por sua capacidade de modular processos inflamatórios e angiogênicos. Evidências  experimentais sugerem que o composto pode reduzir a proliferação, migração e invasão celular,  além de modular vias relacionadas à angiogênese e à manutenção das lesões endometrióticas  (19,20). Entretanto, os estudos clínicos disponíveis apresentam resultados conflitantes,  impedindo recomendações mais robustas (21). 

De maneira geral, embora diversos compostos apresentem plausibilidade biológica e  resultados iniciais encorajadores, a heterogeneidade metodológica dos estudos disponíveis 

ainda limita conclusões definitivas sobre sua eficácia clínica. Além disso, muitos estudos  apresentam pequeno tamanho amostral, curto período de acompanhamento e grande  variabilidade quanto às doses utilizadas e aos desfechos avaliados. 

  1. Suplementação nutricional e fertilidade na endometriose 

A infertilidade associada à endometriose envolve múltiplos mecanismos, incluindo  alterações anatômicas, inflamação crônica, estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e  comprometimento da receptividade endometrial. Apesar disso, a literatura ainda apresenta  escassez de estudos que avaliem diretamente o impacto da suplementação nutricional sobre  desfechos reprodutivos nessa população. 

No período pré-concepcional, recomenda-se especial atenção à identificação e correção  de deficiências nutricionais. Nutrientes como folato, ferro, vitamina B12, vitamina D e iodo  desempenham papel fundamental na saúde reprodutiva e nos desfechos gestacionais, sendo sua  adequação recomendada por sociedades internacionais voltadas à saúde da mulher e medicina  reprodutiva (22). 

Nesse contexto, a NAC tem se destacado como uma das estratégias mais promissoras.  Além dos efeitos observados sobre os endometriomas, estudos sugerem que a modulação do  ambiente oxidativo e inflamatório pode contribuir para a melhora da função ovariana e da  qualidade oocitária (12). Resultados preliminares também apontam possível benefício sobre  taxas de gestação, especialmente em mulheres com endometriomas ovarianos, embora estudos  adicionais sejam necessários para confirmar esses achados. 

A astaxantina emerge como uma estratégia potencialmente relevante. Em mulheres  submetidas à reprodução assistida, sua suplementação foi associada à melhora de marcadores  de estresse oxidativo, do microambiente folicular e de parâmetros relacionados à qualidade  oocitária e embrionária (23). Esses achados tornam a astaxantina uma estratégia de interesse  particular no contexto da infertilidade associada à endometriose, embora ainda dependente de  confirmação em estudos adicionais. 

Embora ainda não existam evidências suficientes para recomendações universais com  foco em implantação, gravidez clínica ou nascidos vivos, alguns compostos apresentam  resultados promissores sobre marcadores intermediários relevantes, como ambiente oxidativo,  microambiente folicular e qualidade oocitária. 

Por outro lado, compostos com potente ação anti-inflamatória e antiproliferativa, como  resveratrol e curcumina, merecem cautela durante tentativas de concepção e tratamentos de  reprodução assistida. Considerando que processos inflamatórios fisiológicos participam da 

decidualização endometrial e da implantação embrionária, alguns autores sugerem evitar sua  utilização durante a fase lútea e em períodos próximos à transferência embrionária, embora  mais estudos sejam necessários para definir com precisão essa recomendação. 

Considerando o caráter multifatorial da doença, a prática clínica frequentemente  envolve a associação de diferentes compostos com propriedades antioxidantes e anti inflamatórias. Entretanto, tais estratégias devem ser individualizadas e periodicamente  reavaliadas, uma vez que intervenções excessivamente direcionadas à supressão do estresse  oxidativo podem interferir no equilíbrio redox fisiológico. Dessa forma, a suplementação deve  ser planejada de forma racional, considerando o contexto clínico, os objetivos reprodutivos e  as evidências disponíveis para cada composto. 

Considerações finais 

A endometriose é uma doença complexa, multifatorial e fortemente associada a  mecanismos inflamatórios, oxidativos e hormonais que contribuem tanto para a progressão da  doença quanto para o comprometimento da fertilidade. Nesse cenário, intervenções  nutricionais têm sido cada vez mais estudadas como estratégias complementares ao tratamento  clínico convencional. 

A adoção de padrões alimentares como a dieta mediterrânea e de baixo FODMAPs mostra-se promissora e biologicamente plausível, porém deve ser individualizada,  considerando o fenótipo da doença, os sintomas predominantes e as comorbidades de cada  paciente, evitando-se protocolos restritivos genéricos que não são sustentados pela literatura  atual. 

A suplementação nutricional apresenta potencial para atuar sobre mecanismos centrais  da fisiopatologia da doença, especialmente por meio da modulação do estresse oxidativo, da  inflamação e da função reprodutiva.  

Diante da heterogeneidade dos estudos disponíveis, a suplementação deve ser encarada  como estratégia adjuvante, integrada a uma abordagem multidisciplinar e individualizada.  Ainda assim, os dados atuais sugerem potencial benefício de compostos antioxidantes e anti inflamatórios, especialmente para modulação da dor, do estresse oxidativo e de marcadores  relacionados à função reprodutiva. Até que evidências mais robustas estejam disponíveis, a  tomada de decisão deve considerar plausibilidade biológica, segurança, objetivos clínicos e  características individuais de cada paciente.

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