Autores: Carla Giovana Basso, Grazielle Viola Arronqui, Mariane Cristina Carlucci Molina Félix, Paula Andrea Navarro e Ines Katerina D. C Cruzeiro.
Diretrizes OMS para a prevenção, diagnóstico e tratamento da infertilidade
Introdução
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou em novembro de 2025 o primeiro guideline voltado exclusivamente à prevenção, diagnóstico e tratamento da infertilidade. O documento é um marco, reconhece e consolida a infertilidade como uma condição de saúde pública que impacta significativamente a qualidade de vida, bem-estar emocional e sistemas de saúde.
As orientações são voltadas à profissionais responsáveis pela formulação de políticas, organizações e associações de apoio e defesa dos pacientes e profissionais de saúde que prestam assistência à saúde reprodutiva (a exemplo: médicos, enfermeiros, embriologistas e psicólogos), e fornecem recomendações baseadas em evidências, a fim de suportar a compreensão e implementação do cuidado à fertilidade de modo seguro e eficaz, além de estimular amplo acesso, integração de políticas, práticas clínicas e estratégias multiprofissionais e oferta de serviços de planeamento familiar de elevada qualidade, incluindo serviços para prevenir, diagnosticar e tratar a infertilidade, como elementos centrais da saúde reprodutiva.
A infertilidade é um problema global que atinge aproximadamente 1 em cada 6 pessoas em idade reprodutiva. A causa pode estar relacionada a fatores femininos, masculinos, relacionados ao casal ou de causa inexplicada, ou seja, não sendo identificada durante a investigação. O guideline permite a consolidação das recomendações e fornece uma fonte através da qual os países possam adotar, adaptar ou atualizar as suas próprias orientações.
A Tabela 1 sumariza as recomendações referentes a abordagem inicial, prevenção e diagnóstico, incluídas nas diretrizes, incluindo a força da recomendação e o grau de certeza das evidências que a sustentam.
| Tabela 1. Recomendações relacionadas à abordagem inicial, prevenção e diagnóstico de infertilidade | |
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A Tabela 2 sumariza as recomendações referentes ao tratamento da infertilidade.
| Tabela 2. Recomendações relacionadas ao tratamento da infertilidade | |
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Abordagem clínica da infertilidade
A diretriz enfatiza a importância de uma avaliação clínica abrangente, com o objetivo de facilitar o diagnóstico e direcionar o tratamento tanto da infertilidade feminina quanto masculina. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define infertilidade como a incapacidade de alcançar a gestação após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares e desprotegidas.
Avaliação inicial
A consulta inicial representa, na maioria das vezes, o primeiro contato do serviço de saúde com indivíduos ou casais que enfrentam dificuldades para engravidar. Frequentemente, as mulheres procuram atendimento desacompanhadas, muitas vezes em decorrência da carga social atribuída à infertilidade feminina. Nesse contexto, é fundamental valorizar as queixas apresentadas e investigar sintomas específicos.
Deve-se garantir ambiente de privacidade e acolhimento, possibilitando abordagens individuais quando necessário, especialmente para a discussão de aspectos sensíveis, como histórico de parceiros, infecções sexualmente transmissíveis (IST) ou situações de violência interpessoal.
História clínica
A anamnese deve ser detalhada e direcionada para ambos os parceiros:
- Mulheres: antecedentes obstétricos, tempo de tentativa de concepção, padrão menstrual, histórico médico e cirúrgico, histórico ginecológico, função sexual, doenças familiares, condições da infância, ocupação, estilo de vida e uso de medicamentos.
- Homens: histórico médico prévio e atual, histórico reprodutivo e sexual, desenvolvimento na infância, antecedentes familiares, fatores ocupacionais, estilo de vida e uso de medicamentos.
Exame físico
O exame físico deve ser completo e direcionado:
- Mulheres: sinais vitais, índice de massa corporal (IMC), avaliação das mamas, tireoide e exame ginecológico (genitália externa, exame especular e toque pélvico).
- Homens: sinais vitais, IMC, características corporais secundárias, avaliação genital (testículos, epidídimo, vasos deferentes, cordão espermático e escroto).
O exame deve ser realizado em condições adequadas de privacidade, higiene e com consentimento do paciente, garantindo o registro apropriado dos achados clínicos.
Avaliação da função reprodutiva
A avaliação da fertilidade envolve:
- análise seminal
- avaliação da ovulação
- estudo da função ovariana
- avaliação tubária
- investigação da cavidade uterina
Diagnóstico da infertilidade
O diagnóstico da infertilidade é organizado em três principais categorias:
Fatores femininos
Incluem:
- disfunção ovulatória
- avaliação da ovulação
- dosagem hormonal
- análise da reserva ovariana
- alterações tubárias
- patologias da cavidade uterina
Fatores masculinos
Abrangem:
- análise dos parâmetros seminais
- avaliação clínica e história reprodutiva
- exame físico completo
Infertilidade inexplicada
Caracteriza-se por:
- ausência de gravidez após 12 meses de tentativas regulares
- histórico clínico e exames normais do casal
- ovulação confirmada
- trompas pérvias na mulher
- parâmetros seminais normais no homem
Tratamento da infertilidade
Os tratamentos são organizados em três grandes grupos:
- Fator feminino
- Disfunção ovulatória (ex.: SOP):
manejo inclui mudanças no estilo de vida, uso de indutores de ovulação com monitoramento, gonadotrofinas ou fertilização in vitro (FIV). - Doença tubária:
- <35 anos (leve/moderada): cirurgia antes da FIV
- <35 anos (grave): FIV como primeira linha
- ≥35 anos: FIV independentemente da gravidade
- Hidrossalpinge:
salpingectomia ou oclusão tubária antes da FIV - Alterações uterinas (ex.: útero septado):
não se recomenda intervenção cirúrgica na ausência de perdas gestacionais recorrentes
- Fator masculino
- Suplementos antioxidantes: evidência insuficiente para recomendação
- Nutrição: importância no período pré-concepcional
- Varicocele: tratamento cirúrgico ou radiológico é recomendado, especialmente em homens com alterações seminais
- Infertilidade inexplicada
- Primeira linha: tratamento expectante (3 a 6 meses), com orientação sobre estilo de vida e período fértil
- Segunda linha: inseminação intrauterina (IIU)
- Terceira linha: fertilização in vitro (FIV)
Discussão diagnóstica e planejamento terapêutico
A diretriz recomenda a realização de testes adicionais conforme necessário, a fim de identificar causas femininas, masculinas, combinadas ou inexplicadas de infertilidade. Deve-se considerar também condições subjacentes, como:
- miomas uterinos
- endometriose
- sequelas de cirurgias prévias
- infecções
- varicocele
- efeitos de quimioterapia ou radioterapia
Além disso, fatores como idade, comorbidades, estilo de vida e exposições ambientais devem ser considerados na tomada de decisão.
Os pacientes devem receber informações claras sobre diagnóstico, opções terapêuticas e prognóstico, incluindo orientação sobre janela fértil e planejamento reprodutivo. O encaminhamento para suporte psicológico deve ser considerado como boa prática, dado o impacto emocional da infertilidade.
Acompanhamento clínico e gestão de riscos
O tratamento da infertilidade deve ser oferecido de forma oportuna, com base na etiologia identificada. As intervenções devem estar fundamentadas em evidências científicas e alinhadas aos princípios éticos, especialmente o da não maleficência.
Embora os tratamentos de reprodução assistida sejam, em geral, seguros, existem riscos que devem ser discutidos previamente, incluindo:
- efeitos adversos leves
- gravidez múltipla
- síndrome de hiperestimulação ovariana
Recomenda-se a definição prévia de um plano de acompanhamento e gestão desses riscos. Ainda, documentação sistemática dos desfechos clínicos é essencial para o monitoramento da efetividade dos tratamentos, vigilância em saúde e melhoria contínua da qualidade assistencial.
Prevenção da infertilidade
A diretriz recomenda a oferta de informações sobre fertilidade e infertilidade por meio de estratégias de baixo custo, direcionadas à população geral em idade reprodutiva ou sempre que houver oportunidade.
Essas estratégias podem incluir materiais digitais ou impressos disponibilizados em escolas, serviços de atenção primária e clínicas de saúde reprodutiva.
O conteúdo informativo deve ser adaptado ao contexto sociocultural e abordar:
- fatores de risco para infertilidade
- hábitos de vida modificáveis
- impacto da idade sobre a fertilidade
- momento adequado para buscar assistência especializada
Conclusão
A inclusão da infertilidade na agenda da OMS representa um marco importante para a saúde pública global, ampliando a visibilidade do tema e promovendo a padronização do cuidado.
No entanto, o documento ainda apresenta limitações quanto à profundidade de algumas recomendações clínicas, especialmente em áreas como:
- infertilidade masculina
- infertilidade inexplicada
- preservação da fertilidade
- reprodução com doação de gametas
Apesar disso, trata-se de um avanço significativo ao estruturar diretrizes iniciais baseadas em evidências, reforçando a importância do acesso equitativo aos cuidados em saúde reprodutiva.
Ainda há espaço para futuras atualizações que incorporem maior detalhamento prático, refletindo a complexidade clínica da infertilidade e os avanços contínuos da área.
Referência: Guideline for the prevention, diagnosis and treatment of infertility. Geneva: World Health Organization; 2025. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.