Ana L R Valadares
A função da testosterona na saúde feminina
Os andrógenos, incluindo a testosterona, são hormônios essenciais para a saúde e a função sexual das mulheres ao longo de toda a vida. Com o envelhecimento, a produção de testosterona pelos ovários e glândulas adrenais diminui naturalmente. Este declínio pode ser um dos fatores que contribuem para a disfunção sexual feminina (DSF), especialmente em mulheres na pós-menopausa. 1,2
Indicação: Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH)
A TT é formalmente indicada para mulheres na perimenopausa e pós-menopausa que sofrem de TDSH, 1,2, recentemente renomeado para Transtorno do Interesse/Excitação Sexual Feminino (TIESF) 3. A recomendação, no entanto, é restrita a casos em que a paciente experimenta sofrimento significativo e outras causas da disfunção sexual foram descartadas. Isso inclui uma avaliação biopsicossocial completa para excluir problemas de relacionamento, fatores psicológicos ou efeitos colaterais de medicamentos, como antidepressivos (ISRSs/ISRNs). A terapia só deve ser considerada quando outras abordagens, como a terapia com estrogênio ou intervenções não farmacológicas, não forem eficazes.1,2
É crucial notar que o Consenso Global sobre o Uso da Terapia com Testosterona para Mulheres recomenda seu uso exclusivamente para mulheres na pós-menopausa.1 Embora a testosterona demonstre um efeito positivo no desejo sexual, a comunidade científica adverte sobre a falta de dados de segurança a longo prazo, o que impede uma recomendação ampla e irrestrita.4,5,6,7
Formulações e recomendações
Um dos maiores desafios da terapia com testosterona em mulheres é a ausência de formulações farmacêuticas desenvolvidas especificamente para as mulheres. Assim, apresentamos as sugestões das sociedades nas Tabelas 1 e 2.
Tabela 1. Recomendação do Consenso Global e da Sociedade Internacional para o Estudo da Saúde Sexual da Mulher (ISSWSH):1,2
| Tipo de Formulação | Recomendação | Justificativa |
| Gel Transdérmico (uso masculino) | Prescrever 1/10 da dose comercializada para homens. | Permite uma dosagem mais controlada, com monitoramento periódico dos níveis séricos para evitar doses excessivas. |
| Oral, Injetáveis, Manipulados (Gel e Implantes) | Não recomendados. | Apresentam alto risco de levar a níveis suprafisiológicos de testosterona, aumentando a chance de efeitos adversos graves. |
Tabela 2. Testosterona para as mulheres de acordo com o veículo utilizado- FEBRASGO POSITION STATEMENT 8
| Dose | Veículo | Absorção | Exemplo de prescrição |
| Testosterona base 1 a 5 mg | Veículo de alta performance (Pentravan®) | 50% a 63% | Testosterona base………….2,0 mg Pentravan® QSP……………1,0 mL |
| Veículo alcoólico | 9% a 14% | Testosterona base………….5,0 mg Veículo alcoólico QSP…….1,0 mL |
O objetivo é sempre manter os níveis sanguíneos de testosterona dentro da faixa fisiológica normal para mulheres na pré-menopausa.1,2,8 A mensuração da testosterona total não serve para diagnosticar o TDSH, mas sim como um valor de referência para monitorar a segurança da terapia e garantir que os níveis não se tornem suprafisiológicos 1,2,8
Efeitos Adversos: O Risco das Doses Suprafisiológicas
Os efeitos adversos da testosterona são incomuns quando os níveis são mantidos na faixa fisiológica. Os mais comuns são leves e reversíveis com o ajuste da dose, como acne e crescimento localizado de pelos. Contudo, o uso de doses suprafisiológicas, frequentemente associado a formulações inadequadas, pode causar efeitos colaterais irreversíveis, incluindo:6,9
- Hipertrofia do clitóris
- Aumento de pelos faciais e corporais (hirsutismo)
- Alterações no timbre da voz (engrossamento)
- Ganho de peso
Usos não comprovados da testosterona
Atualmente, não há evidências científicas suficientes para apoiar o uso da terapia com testosterona para outras finalidades além da disfunção sexual em mulheres na pós-menopausa. Isso inclui a melhora de:
- Desempenho cognitivo
- Fadiga e insônia
- Saúde musculoesquelética (risco de fraturas e quedas)
Embora estudos-piloto recentes sugiram melhorias potenciais no humor e na cognição 10, esses resultados são preliminares e necessitam de confirmação em ensaios clínicos de larga escala. 10,11
Populações especiais
- Mulheres na pré-menopausa: O consenso internacional atual é claro ao afirmar que não há dados que sustentem o uso de terapia com testosterona para qualquer indicação em mulheres na pré-menopausa.1,2
- Pacientes com câncer de mama: Alguns dados sugerem que a testosterona pode ajudar a função sexual em pacientes sob tratamento com inibidores da aromatase. No entanto, esta não é uma prática padrão e carece de dados de segurança a longo prazo.12
Conclusão
A terapia com testosterona pode ser uma ferramenta valiosa e eficaz para o tratamento do TDSH em mulheres na peri e pós-menopausa, desde que seja indicada e acompanhada por um profissional qualificado. A chave para a segurança é a utilização de formulações transdérmicas em doses apropriadas e o monitoramento contínuo para manter os níveis hormonais dentro da faixa fisiológica. O uso para outras finalidades ou em outras populações carece de comprovação científica e não é recomendado.
Referências bibliográficas
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